top of page

Cogumelos e a Medicina Evolucionária






Os cogumelos são, hoje, uma nova tendência mundial, e não se reduzem mais a receitas de omeletes. Neste artigo, o médico Theo Webert fala sobre as espécies que podem fazer bem a saúde, as últimas pesquisas sobre a microdosagem de psilocibina e a sua importância nas tradições indígenas e afro-brasileiras


Você pode ter percebido o aumento de notícias sobre o avanço nas pesquisas e debates em torno dos cogumelos medicinais, em diferentes universidades do mundo. Enquanto você lê esse artigo, muitos outros estudos estão sendo publicados. Percepções a respeito dos seus benefícios terapêuticos têm vindo à tona e despertado o interesse de uma comunidade sedenta por alternativas frente a tantas doenças, principalmente as mentais.


O finlandês Tero Isokauppila, autor do livro Healing Adaptogens: The Definitive Guide to Using Super Herbs and Mushrooms for Your Body's Restoration, Defense, and Performance, entre outros, é considerado o guru dos cogumelos. Ele elegeu quatro espécies principais, que não tem o efeito psicodélico, mas que podem melhorar a sua qualidade de vida quando usados adequadamente, seja incluídos em sua alimentação diária ou até mesmo na forma de cápsulas:


CHAGA: Inclua no café da manhã


Conhecido como o “rei dos cogumelos”, ele pode ajudar a melhorar a sua imunidade. Tero se referiu a este cogumelo como um potente antioxidante e uma das principais fontes de melanina, presente na pele, o nosso maior órgão e a primeira barreira protetora contra patógenos. O Chaga pode agir como um “guarda-corpo” para o nosso bem estar interno e externo. É recomendado beber um pouco de chá feito dele, em jejum.


JUBA DE LEÃO: Alimento para o cérebro


Estes cogumelos medicinais são conhecidos como “drogas inteligentes”, que podem servir para melhorar o estado de alerta, o foco e a capacidade cognitiva. De acordo com novas evidências científicas, ingerir diariamente uma pequena porção é totalmente seguro e poderá dar ao seu cérebro um impulso a mais para deixá-lo melhor do que já é.


CORDYCEPS: Impulso no pré-treino


Descoberto por antigos e amado por atletas, Cordyceps é conhecido por fornecer energia sem causar taquicardia. Este cogumelo pode ajudar a aumentar em até 20% a oxigenação dos tecidos, ampliando a energia mental e física.


REISHI: Auxílio para seu estresse noturno


Se o Chaga pode ser conhecido como o rei dos cogumelos, Reishi é a rainha, podendo auxiliar no controle do estresse sem causar sonolência. Tero diz que o melhor sono é quando se mistura esse cogumelo com cacau e se faz uma infusão para ser tomada antes de dormir. Ele relata que isso pode ajudar a relaxar e atingir o sono mais profundo e duradouro.


Quando o assunto é uso de cogumelos para fins terapêuticos, encontramos uma profusão de estudos que mostram a psilocibina, princípio ativo desse tipo de cogumelos, como alternativa para o tratamento do alcoolismo, depressão, ansiedade, TOC e até Parkinson.


MICRODOSAGEM

Um estudo recente fornece a evidência mais convincente até o momento, sobre os benefícios para a saúde mental com o uso continuado de microdosagem de psilocibina.


A microdosagem, ou a ingestão repetida de pequenas quantidades quase imperceptíveis de psicodélicos, tem aumentado exponencialmente em popularidade, com uma margem expressiva de pessoas relatando uma infinidade de melhorias no contexto psicológico. Porém, não estou falando do uso recreativo, onde nos deparamos com muitos fazendo o uso em festas e reuniões de amigos, para “ter um barato”. Isso é totalmente desaconselhado, principalmente quando já se sabe a seriedade dos estudos e diante de tantos benefícios e relatos que o seu uso pode trazer quando bem indicado e com acompanhamento profissional. É uma terapia promissora em um futuro bem próximo.


O mais recente estudo científico para analisar os efeitos da microdosagem foi realizado por pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica. O estudo acompanhou 953 pessoas que usaram doses pequenas e repetidas de psilocibina por cerca de 30 dias, bem como um grupo de controle que não fez a microdose.


Embora as dosagens exatas de psilocibina que os participantes auto administravam variassem, todas eram baixas o suficiente para não afetar o seu funcionamento pessoal diário.

“Nossas descobertas de melhora do humor e redução dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse aumentam a crescente discussão quanto ao potencial terapêutico da microdosagem”, afirma o Dr. Zach Walsh, autor do estudo.


Outro componente desse estudo foi a investigação do uso de empilhamento, onde os cogumelos de psilocibina são combinados com outros, não psicodélicos, como os cogumelos Juba de Leão. O estudo observou que aqueles que empilharam, tiveram melhorias mais significativas, do que aqueles que não o fizeram.


Muitos lugares ao redor do mundo já avançam com os estudos e validações científicas. Oregon (EUA), Canadá e, mais recentemente, São Francisco (EUA), legalizaram os cogumelos para uso terapêutico. Isso é um grande avanço dentro da ciência, com esse momento sendo até chamado de “Renascimento Psicodélico”, uma das áreas mais promissoras da pesquisa em saúde mental.


Recentemente, a Netflix lançou um documentário baseado no livro do autor e jornalista americano Michael Pollan, chamado “Como mudar sua mente”. Em uma impressionante jornada de caráter tanto científico quanto pessoal, Pollan mergulha nos mais diversos estados da consciência e apresenta os progressos que substâncias como LSD e psilocibina trazem para os estudos mais recentes da neurociência.


Os pesquisadores se mostraram entusiasmados com os resultados, muito embora criteriosos quanto à necessidade de mais pesquisas e estudos controlados, com uso de placebo.


No Brasil, temos grandes nomes como o do neurocientista Sidarta Ribeiro, uma das vozes mais respeitadas na pesquisa com psicodélicos em âmbito nacional e internacional. Ele publicou mais de 100 artigos científicos em periódicos internacionais e livros de ficção e divulgação científica, como o “Oráculo da Noite”. Sidarta é um ávido buscador das tradições indígenas e afro-brasileiras, dos saberes populares e da nossa ancestralidade. O neurocientista pesquisa memória, sono e sonhos, plasticidade neuronal, comunicação vocal em aves e primatas, neurociência aplicada à educação, psicodélicos e política de drogas.


Outro grande cientista é o Dr. Walsh, que declarou, em entrevista: “Temos uma epidemia de problemas de saúde mental, com tratamentos existentes que não funcionam para todos. Precisamos seguir o exemplo dos pacientes que estão tomando essas iniciativas, para ter a chance de melhorar seu bem-estar e reduzir o sofrimento”. É vasta a literatura com depoimentos narrando as diferentes experiências com a psilocibina para fins medicinais, como um caminho possível de tratamento terapêutico, sobretudo por não serem substâncias viciantes e ainda evidenciarem ganhos expressivos em termos de neuroplasticidade.

O que causa fascínio é que esse bem-estar não se limita a um alívio físico ou psíquico. Pode-se dizer que estas dimensões se somam aos relatos de um sentimento de total pertencimento e unidade. Justo porque os depoimentos dessas experiências evidenciam o quanto a psilocibina pode expandir conceitos, integrar o que parecia segregado. Sua capacidade de quebrar padrões fixos e hábitos da mente, torna esse composto químico natural a outra via medicamentosa, para uma medicina evolucionária.


Estamos diante de uma substância que precisamos respeitar, entender e ter a capacidade de desenvolver pesquisas e estudos ainda mais aprofundados. Muitos esquecem que cogumelos são a frutificação dos fungos, portanto, muito são comestíveis. Entendendo isso, precisamos encará-lo como alimento, energia vital que estamos dando ao nosso corpo e nutrindo todas as nossas células. Isso posto, precisamos também entender qual o seu impacto em nossa digestão, como ele interfere na liberação de hormônios como cortisol, dopamina e serotonina, por exemplo. Se eles se mostram promissores no tratamento de doenças mentais como depressão, se mostram eficazes no tratamento de tabagismo, alcoolismo e outros tipos de dependência, onde eles estão agindo para entendermos como é o impacto em toda nossa fisiologia, se faz cada vez mais necessário.

Até o momento o uso dessas substâncias ainda não é legalizado, e sua utilização se limita a pesquisas. Então, cuidado se você for surpreendido por alguém te oferecendo “cogumelo” para você se divertir mais, se sentir mais feliz ou até mesmo como promessa de controlar a ansiedade. Esse renascimento está acontecendo de forma muito promissora, mas requer muita atenção e cuidado. Nós, que estudamos essas substâncias, temos um maior zelo e respeito, porque entendemos o quão impactante e transformadora elas podem ser quando usadas da maneira adequada.



Theo Webert é médico com foco em nutrologia e qualidade de vida. Estudou na Universidade Potiguar, em Natal (RN) e realizou diversas especializações internacionais, especialmente nos EUA, como no Instituto Medicinal Funcional (IMF) e American Academy of Anti-Aging Medicine.

Rectangle 18.png
bottom of page